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Não é só o Chelsea… Clubes brasileiros iniciam estudo de ciclo menstrual no futebol feminino

Na Série A1 do Brasileiro, equipes como Corinthians e Flamengo monitoram período menstrual das atletas e mudam treinos de acordo com a necessidade de cada uma

Há duas semanas, o futebol feminino do Chelsea virou assunto nas redes sociais ao chamar a atenção para a adaptação dos treinos ao ciclo menstrual das atletas. A iniciativa partiu da técnica Emma Hayes, com o objetivo de otimizar a performance da equipe, reduzir o risco de lesões e respeitar as condições do corpo das jogadoras. A reportagem tentou contato com a equipe para falar sobre o assunto, mas não obteve retorno. O clube inglês, no entanto, não é o único da modalidade.

No Brasil, times como Santos, Corinthians, Flamengo e Bahia estudam essas mudanças de rendimento. Para entender o funcionamento deste trabalho, consultamos o formato da montagem dos treinos das equipes da Série A1 do Brasileiro. E o levantamento mostra que a diferença está na forma como essas informações são coletadas e utilizadas por cada clube.

Das 16 equipes que estão na elite feminina em 2020, 14 se posicionaram sobre o método. Seis fazem o monitoramento e alteram treinos específicos de acordo com o ciclo. Caso de Flamengo, Corinthians, Grêmio, Palmeiras, Santos e Vitória. Duas acompanham o período menstrual das atletas, porém não alteram os treinamentos de forma individual: Internacional e Cruzeiro.

Uma das referências na modalidade, o Iranduba-AM, por outro lado, não faz acompanhamento por cronograma. Conta com a colaboração das jogadoras na base da conversa, e muda as cargas de acordo com a necessidade de cada. Por fim, cinco equipes declararam não trabalhar com o monitoramento: São Paulo, Ponte Preta, São José , Minas Icesp e Kindermann-SC.

São Paulo conquistou o acesso à Série A1 do Brasileiro Feminino — Foto: São Paulo

São Paulo conquistou o acesso à Série A1 do Brasileiro Feminino — Foto: São Paulo.

 

Apesar de estar no G12 do futebol brasileiro, o Tricolor paulista, que se planeja desde 2017, voltou a montar uma equipe profissional somente em 2019, quando passou a ser obrigatório para times da Série A. Diante deste cenário, o técnico Lucas Piccinato explica.

“Não utilizamos o método de ciclo (menstrual) para controlar qualquer tipo de carga em relação ao treinamento. Acho que se a gente não tem esse aporte ginecológico para fazer esse tipo de trabalho, fica um pouco superficial, então a gente não faz esse acompanhamento.”

Clube de referência na Série A2, o Sport vive situação semelhante. Desde que foi reativado, ao fim de 2016, trabalhou com o monitoramento por dois anos (2017 e 2018). Mas após o breve término do departamento e remontagem às pressas, no ano passado, a equipe passou a ser formada por atletas locais e ficou difícil acompanhar as jogadoras, explica a técnica Keila Lima, já que elas deixaram de morar no alojamento do clube.

O Santos trabalha com o monitoramento através de planilhas controladas pela preparação física. Preveem datas e reações, e podem optar por manter ou diminuir as cargas nos treinos. Neste ano, vale ressaltar, seis atletas promovidas da base chegaram ao profissional com um acompanhamento adiantado desses dados. Há quatro anos no futebol feminino, o técnico do Peixe, Guilherme Giudice, vê o método como fundamental.

“Imagino que toda equipe pense nisso na hora de planejar seu treino. Ganhou mídia pela apresentação do Chelsea agora, mas me lembro bem de antes de trabalhar com futebol, trabalhei com vôlei e é uma coisa que não tem como passar. Não tem como trabalhar com uma equipe feminina e negligenciar o ciclo. Faz parte do desempenho entender como ele funciona.”

Corinthians foi campeão paulista feminino no ano passado — Foto: Bruno Teixeira / Ag. Corinthians

Corinthians foi campeão paulista feminino no ano passado — Foto: Bruno Teixeira / Ag. Corinthians.

 

Atual campeão da Libertadores e vice do Brasileiro, o Corinthians funciona desde 2018 sob gestão própria. No clube, as atletas passam por uma avaliação de pré-participação, em que é feito um rastreamento do histórico do corpo de cada mulher, explica a médica do clube Taline da Costa.

– Tem o histórico da mulher, uma especificação da mulher, pensando mesmo em ciclo menstrual, tempo de duração, sintomas que acompanham, a percepção delas com o sangramento. Todas elas são rastreadas e são informadas para nos avisar sobre a regularidade ou irregularidade menstrual ou alteração de sintomas no primeiro contato. A gente consegue fazer todas as intervenções a partir dessas entrevistas que são feitas. Todas são orientadas a ter também em conjunto o acompanhamento ginecológico pelo menos anual.

De acordo com uma pesquisa divulgada pelo Hospital Portland, de Londres, ainda em 2007, as mulheres têm mais risco de sofrer lesões musculares e nos tendões por volta da metade e do fim do ciclo menstrual. O que está relacionado a mudanças nos níveis de hormônios. Para o estudo, entrevistaram mil osteopatas e acompanharam 17 mulheres de ciclo menstrual regular.

A Seleção Brasileira feminina não trabalha com o método. Mas a técnica Pia Sundhage, responsável pela equipe, aprova a possibilidade de o trabalho auxiliar na prevenção de lesões e, principalmente, por este parecer ser o início de estudos específicos para as mulheres no esporte.

“Fizemos isso na Suécia (como jogadora), 30 anos atrás, para ver a questão das lesões no período menstrual. Claro que pode ser algo para ajustar um pouco o treino, mas é muito individual. É interessante por ter uma pesquisa em relação ao esporte feminino. Anteriormente, havia apenas o estudo dos homens. Eu hesito um pouco quando dizem que mulheres são desse jeito e homens são daquele jeito. Você põe eles em uma caixa. E são todos indivíduos. Mas é interessante na questão de prevenir lesões.”

A sueca Pia Sundhage comanda a Seleção Brasileira feminina — Foto: PETER LEONE/O FOTOGRÁFICO/ESTADÃO CONTEÚDO

A sueca Pia Sundhage comanda a Seleção Brasileira feminina — Foto: PETER LEONE/O FOTOGRÁFICO/ESTADÃO CONTEÚDO.

 

Um exemplo de como o método pode auxiliar neste quesito é a zagueira Aila, do Bahia, que se queixava de pernas pesadas, sensação de inchaço e dores de cólicas no período. Apesar de estar na Série A2, segunda divisão do Brasileiro, o clube trabalha com o monitoramento desde o ano passado. E o processo tem feito a diferença.

“Antes eu sofria muito com lesões, principalmente nos joelhos. E hoje, depois do questionário que ele (o preparador) passa para a gente, os pré-treinos também, com base dos ciclos, se eu estiver no período e com muita indisposição, ele diminui mais a carga e faz mais repetições. Isso ajuda bastante. Raramente acontecem lesões.”

No Bahia, o preparador físico Ítalo Trinchão desenvolveu um software que permite às atletas, sempre antes e depois das movimentações, assinalar intensidade do treino, recuperação, qualidade de sono, peso, cargas e, também, o ciclo menstrual.

“Elas ficavam muito tempo fora de sessões de treino por cansaço, fadiga, dores. Quando a gente implantou esse software, tivemos um ganho. Todas treinam normalmente, só passamos a individualizar. Temporada passada não tivemos lesão grave para processo cirurgia. Foram apenas duas de tornozelo, por trauma em campo. O próximo passo é relacionar mais dados e pesquisas para obter um melhor desempenho para as mulheres.”

Uma das profissionais responsáveis por acrescentar na conversa que resultou na criação do software do Bahia,

Uma das profissionais responsáveis por acrescentar na conversa que resultou na criação do software do Bahia, em contato com o treinador na época, é a preparadora física Ivi Casagrande. Ela está a frente do Orlando Pride, da Flórida, equipe em que jogam as atacantes Marta e Alex Morgan. A americana, inclusive, passou pelo mesmo processo de monitoramento com a Seleção dos Estados Unidos, na Copa da França, em 2019. No Orlando, Ivi naturaliza a questão.

– É um jeito de começar uma conversa da importância de fazer algo a mais em determinadas fases. Quando você vê a atleta está no ciclo pré-menstrual, essa fase tem maior inflamação por causa dos hormônios. O ciclo interfere no rendimento de atletas, mas se tiver uma dor de cabeça no treino, vai afetar meu rendimento. Não é um bicho de sete cabeças.

A preparadora ressalta que o método é apenas um dos elementos necessários ao desenvolvimento da modalidade e da prevenção de lesões. Diante deste cenário, avalia que, no Brasil, para além do monitoramento, falta o suporte dos clubes em relação a fundamentos como: a qualidade de movimento, os treinos de força e a recepção de impacto.

“Acho que o buraco é mais embaixo. É preciso ser feito um trabalho muito grande no desenvolvimento de atletas jovens para que elas já tenham uma base boa para atender às demandas do futebol que é um esporte que precisa ser feito esse trabalho.

Confira posicionamento dos outros clubes da Série A1

 

  • Cruzeiro
    – Nós fazemos o acompanhamento para entender as individualidades de cada atleta, assim como relacioná-lo com outras informações, como: peso corporal, percentual de gordura, queixas de dor – afirmou o técnico Jorge Victor.
    O processo para planejamento dos treinos, ainda de acordo com o comandante, é feito a partir da necessidade de desenvolvimento tático e físico da equipe. A sequência dos conteúdos é definida antes mesmo da temporada começar. Semanalmente, acontecem reuniões para discutir se alcançaram os objetivos da semana que passou e o que será necessário adequar para a seguinte.
  • Flamengo
    De acordo com a comissão técnica, todos os dias as atletas preenchem um formulário com algumas questões. Entre elas, a menstruação. A partir disso, o clube orienta sobre os procedimentos a serem feitos. Tudo se modifica a partir da informação, principalmente, em relação a treinamento e hidratação, afirmou via assessoria de imprensa.
  • Grêmio
    – Utilizamos o monitoramento do ciclo menstrual, controle dos anticoncepcionais e correlacionamos com as respostas de percepções subjetivas. Também realizamos controle e orientações das horas de sono e hidratação – explicou a preparadora física Karla Loureiro, que trabalha dessa forma no clube desde maio de 2019.
  • Internacional
    – O que a gente faz é um controle em relação a se o ciclo se aproxima e quando em geral as atletas têm o ciclo. Isso não denota alteração de treinamento, o que denota é uma compreensão, talvez, no rendimento da atleta. É uma tendência que os ciclos menstruais fiquem próximos quando grupos trabalham juntos, mas não há como fazer um trabalho que em cima do ciclo que você mude o treinamento. Até porque os calendários não mudam em relação a isso – afirmou o técnico Maurício Salgado.
  • Iranduba
    – Não temos esse acompanhamento com cronograma, monitoramento específico, apenas verbal. Aqui pedimos para as atletas, quando estão no período menstrual, nos avisar. Pois na maioria das vezes, o rendimento cai, o temperamento muda. As pessoas tem que saber como agir e tratar. Pedimos para nos avisar para sabermos como lidar e o que cobrar da atleta nesse período. Não (sinto falta de ter um monitoramento específico), porque a gente aqui consegue ter um diálogo bom com as atletas – disse a auxiliar Técnica do Iranduba, Renata Costa.
  • Kindermann
    Os treinos não são de acordo com o período menstrual. Ou seja, não existe um trabalho específico para determinadas meninas em um determinado período do mês. É o mesmo para todas, informou o clube por meio de assessoria de imprensa, após consulta à comissão técnica.
  • Minas Icesp
    O clube inicia o ano fazendo testes e fazem a pergunta sobre quando começa o ciclo menstrual das atletas. No entanto, ainda não faz um trabalho preciso focado nesta informação, explicou a presidente do clube, Nayeri Albuquerque.
  • Palmeiras
    – Temos um gráfico na sala de reunião e estamos monitorando para identificar. Vamos controlando isso afim de melhorar os trabalhos. Fazíamos desde o Sub-18 do ano passado e levamos para o profissional. Isso nos ajuda no nosso relacionamento com elas também no dia a dia. Hoje conhecemos um pouco mais as atletas, fica mais fácil identificar. Às vezes nem precisa olhar no gráfico, já sabemos pelos sintomas – explica o preparador físico William Bitencourt.
  • Ponte Preta
    Não trabalha com monitoramento. As atletas seguem o treino determinado para o dia.
  • São José
    Informou por meio da assessoria de imprensa que não faz um monitoramento a respeito.
  • Vitória
    – Utilizo uma planilha, onde tenho basicamente o início e o fim do ciclo menstrual das atletas. Através disso, temos como manter um controle e uma carga apropriada para cada período do ciclo. Junto com a fisiologia do Vitória, estamos criando um programa para melhorar ainda mais esse monitoramento, e assim poder extrair o máximo de cada atleta no período adequado – explicou o preparador físico, Jeferson Queiroz da Silva.

Até a publicação desta matéria, Ferroviária e Audax não haviam se posicionado.

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Adilson Amorim

Sou Adilson Amorim, Fotógrafo profissional há mais 30 anos, sempre tive o sonho de ter meu próprio jornal. O Tempo foi passando e com o avanço da tecnologia foram surgindo blogs e sites de notícias e o sonho prevaleceu no coração até hoje, e pela a graça e a vontade de Deus, surgiu o Projeto Didi Notícias, um site que irá abordar as principais notícias da grande região de São Desidério e Oeste da Bahia, com dedicação e responsabilidade. É com grande privilégio e entusiasmo que estaremos oferecendo o melhor site de notícias e entretenimento à você que gosta de estar sempre bem informado sobre as notícias de nossa região. Conecte-se conosco!

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